De tudo que vivi, já vi e presenciei muita coisa. Falando desse jeito até pareço muito velha. Mas não aconteceu pouca coisa pra quem só viveu 19 anos. Costumo dizer que morro e não vejo de tudo, de tanto acontecimento que cai rotina adentro quebrando o ciclo e a sanidade de toda ela. Eu tô sempre me surpreendendo, e posso dizer que a principal causa de tudo isso são pessoas. Os outros assumem um papel muito importante nas nossas vidas, às vezes, até mais do que deveriam. E geralmente são os responsáveis por reviravoltas e fatos inesperados. 
Fiz aniversário semana passada, aproveito essa data pra frisar que quanto mais a gente cresce, menos se importa com algumas consequências. O inferno são os outros só se tu quiser. Do ano passado pra cá, andei chutando o balde definitivamente em algumas situações. Tenho certeza, ainda mais escrevendo esse texto, que foi o melhor que eu podia fazer.
Nessas idas e vindas conheci muita gente. Fui, já, a muitos lugares; fiz, desfiz e refiz amizades. Acontece que conhecer não é ser apresentado, trocar meia dúzia de palavras e dizer que tu conhece fulano. Conhecer é se envolver a fundo, passar tempo suficiente com alguém para descobrir detalhes verdadeiros a respeito da personalidade dele. E isso, meu amigo, às vezes demora anos.
Já me foi comentado a respeito da minha inocência para com as outras pessoas. Tudo é lindo, pessoas são confiáveis, ninguém vai fazer nada e seremos amigos para sempre. Com o tempo, fui percebendo que não é assim. Tomei na cara pra aprender. E foi necessário tudo isso. Me aproximo rápido, e em menos de um mês já me apaixono por caráteres que não são de verdade. Talvez por tentar fazer tudo com a menor malícia possível, não desejo ver a malícia nas pessoas. Então a vida me força a verdade de outra forma, mesmo que eu não queira, pra então descobrir que certo alguém não é como eu esperava. Falando nisso, como a gente se decepciona..
As coisas evoluíram, e hoje em dia fui aprendendo a dizer não, aprendendo a me defender, a dar na cara, a impôr minha opinião e impôr meu limite. Desaforo não é mais levado pra casa. Mas meu conceito de amizade não muda: ela é uma via de mão dupla.
E do que aprendi, salvo uma importante lição: ninguém muda, mostra sua real personalidade. Por tudo isso, um passo atrás nunca é demais. Confiança é algo que se conquista. Porque, como diria Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal.”

Mulher de verdade é aquela que chega em casa cansada do trabalho, mas ainda tem tempo de contar uma história pros filhos e dar atenção pro marido.
É aquela que fala ao telefone, retoca o batom, troca as fraldas das crianças e prepara o almoço - simultaneamente.
Mesmo não estando sempre de bom humor, faz as coisas com boa vontade e não vive a reclamar por bobagem e se lamentar da vida.
É aquela que não tem frescura e topa qualquer coisa, gosta de beber uma cerveja e falar besteira com os amigos. Porém, ao mesmo tempo, faz questão de estar sempre arrumada: aguenta a dor no pé e usa salto uma noite inteira e não chora pra não borrar a maquiagem.
Mas acima de tudo, mulher de verdade é aquela que, além de reconhecer seu próprio valor, não subestima nunca o valor do homem também. Porque todos têm direitos iguais, mas características diferentes.

365 dias, 8760 horas, 525600 minutos, 31536000 segundos.
Instante. O valor de um instante. Temos milhares deles, geralmente não damos valor porque são muitos, mas graças a cada unidade compõe-se o todo. Às vezes uma vida inteira gira em torno de um instante. Às vezes, ele pode significar mais que ela. Uma decisão, um pedido, um diagnóstico, uma escolha, uma morte, um nascimento, um sonho realizado.
Um instante tem o poder de mudar sua vida para sempre.
Passamos várias ocasiões da nossa vida praguejando. “Desperdiçamos” diversos segundos durante o dia a dia. Pegamos o elevador, esperamos o ônibus, atravessamos a rua… Mas, se pensarmos: e se for o último? E se for fatal? Nunca saberemos qual será o último momento de nossas vidas, por vezes passando tanto tempo preocupados em reclamar, que nem conseguimos ver.
Uma vez ocorrido, um instante não volta atrás, ele desaparece. Já os outros não param. Vêm um a um seguidos, e só se pode usar o agora para mudar o futuro. São irreversíveis.
Um segundo, um minuto, uma hora, um dia, uma vida não podem ser comprados. Custam um preço que dinheiro algum do mundo seria capaz de alcançar.
Valorize seus instantes.

Partindo rumo ao encontro da razão de seu esforço ia ele, seguro e feliz da sua escolha. Sabia que era a certa e, para mostrar isso, tinha comprado um presente que demonstrava fisicamente todo o amor que sentia. Era um pouco simples, de fato, mas não tinha achado algo com uma sinceridade mais natural que aquela. O presente? Flores vermelhas; rosas, pois achava que eram as que ficavam melhores naquela cor. Era um homem bem tradicional e clássico, não entendia muito de romances, apenas de cantadas, – aquele sim, sabia conquistar uma mulher – mas via em sua compra exatamente a coisa que ele queria expressar pra ela, que jamais antes houvera sentido.
Deixou pra trás os dogmas: dessa vez estava realmente disposto a se entregar. Era um daqueles casos em que uma pessoa dominada pela paixão está convicta. “Vermelho é a cor da paixão.” – pensava ele. Era também a cor favorita dela. Se recordou que ela havia comentado nunca ter recebido flores antes. Como poderia uma mulher daquelas nunca ter ganhado algo singelo assim? Só pensava no quanto queria fazer ela feliz. E tinha certeza de tudo isso, imaginava os dois morando juntos, se imaginava até construindo uma família com ela. Mas a menina que gostava de vermelho provou de onde realmente o vermelho vinha.
Atravessando a rua para entrar no serviço dela, viu a cena que arruinou seus pensamentos em pedaços. O destinatário das rosas estava muito bem entretido sem ele. A mulher com a qual ele acreditava estar compartilhando uma vida estava compartilhando os momentos de folga completamente envolvida com outro, de uma maneira mordaz, de forma perversa, como se ele não existisse, mostrando que o respeito que ela tinha por ele era nulo.
Naquela hora, o chão se diluiu. Não se diluiu, porém, mais do que suas certezas – a única agora, era que nada mais em volta estava nítido, apenas aquela cena que lhe causava dor e aversão, uma decepção imensurável. Vadia. Não acreditava que a realidade que se escondia poderia ser exatamente o contrário da que imaginava, e a sensação de estar sendo enganado como um completo idiota consumia sua mente. Vermelho também é a cor do inferno…
Os olhos dela, sem vontade nem tempo de se distrair, sequer cruzaram com os dele, que entrava no escritório, totalmente desnorteado. A única coisa que conseguiu fazer, seguindo seu mais primórdio impulso, foi reparar em uma atendente do balcão e lançar em sua mesa as flores, retornando a perder o olhar, sem mencionar uma única palavra. Atitude de seu próprio instinto que, assim pensava ele, nunca devia ter saído de seu devido lugar. E vinha se reconstituindo.
A atendente olhava as flores surpresa e encantada por aquele repentino agrado. Um pouco estupefata, não sabendo a origem e o motivo de ele ter aparecido, levantou-se da cadeira, indo até o homem perguntar o porquê daquilo.
A resposta que recebeu foi:
“Fica pra você. Este aqui é meu cartão.”

E seguiu vestindo o paletó rumo contrário, com toda a frieza que retornava a ter, pois seu antigo eu estava muito atrasado para encontros amorosos.

[…]


E hoje estava ele ali, se encaminhando para a sala do teste final. Era como se, em um único dia, naquele único momento, tudo na sua vida se decidiria. Suas ambições, agora, eram todas unidas em uma só: o rumo da sua trajetória.
Um estalo de dedos com apenas alguns instantes. À medida que andava, chegava mais perto da resposta - por enquanto, ela era apenas um rumor. Pé ante pé, e cada rastro do passado não existia mais, caminhava pra frente, vivia o futuro. Esse presente, enquanto se locomovia, seria só uma passagem para a decisão chave. Tinha que manter na cabeça tudo o que havia aprendido.
Treinou, estudou, ensaiou, sabia que o empenho já tinha, também contaria com a sorte. Tinha que dar certo na hora.
Lembrou-se de quando estava correndo anteriormente. Havia participado de uma maratona semana passada. Estava atrás de dois concorrentes, mas não podia parar, o fim do percurso estava cada vez mais próximo e ele continuava correndo. Ele procurava, mais do que tudo, força em sua mente para que pudesse aguentar e superar o extremo da dificuldade física que bradava em seu corpo. Aumentava a velocidade, porque daquela forma sabia que o destino seria mais rapidamente alcançado. Ali o tempo se diminuía. E em todo minuto o pretérito e as dores que viveu pareciam mais distantes. E estavam, pois não existiam mais.
Assim era a situação que estava vivendo dentro daquele corredor. Mas agora, não suava de correr. Suava frio. E assim como lacerou a linha de chegada com êxito, tinha uma grande possibilidade de êxito agora.

- Sabe pra onde estamos indo? – dizia uma voz vinda de um conhecido de não muito remoto tempo, todavia já continha uma pitada de intimidade e bons votos a seu favor.
- Para onde? – mesmo com a resposta sendo a única coisa do mundo que tinha na cabeça, não titubeou em perguntar.
- Para o caminho do sucesso.

Ainda com a adversidade daquilo tudo, pegara as sábias palavras, e guardara com aptidão em sua mais funda motivação cerebral. Iria seguir forte, até onde suas pernas suportassem.
Era definitivamente alguém que tinha sede de ganhar.
Gostava do domínio, mas não de tê-lo totalmente. Não queria mulheres que o ligassem mais que a sua mãe, metas muito fáceis de se atingir, apostas miseráveis. O que é fácil demais não lhe apetecia igual às dificuldades. Quem quer subir no pódio por correr 100 metros? Um eterno conquistador não perde uma oportunidade significativa, vai atacá-la; porque quanto maior
o desafio, maior a conquista. E essa vez seria para carimbar por definitivo seu lema. Tinha certeza.

- Você pode sair daqui, só por um pouco?
- Não me diga isso, você sabe que não consegue viver sem mim.
- Estou tentando.
- Querida, faça aquilo que estou te pedindo.
- Quantas vezes segui seus conselhos e as coisas saíram erradas, supérfluas?
- E quantas vezes te fiz conseguir o que queria… Você não entende, não sei porque tenta contrariar. Sabe que eu e você somos carne e unha, nos damos muito bem. Apesar das desavenças, nos completamos como um só.
- Fico pensando se quis mesmo essas coisas ou foi porque você fez minha cabeça.
- Eu não te ajudo a fazer nada que você não queira fazer. Estamos juntos, agimos juntos. E você tem que valorizar a minha opinião… Te trago mais luz que o sol.
- Esse é o seu problema. Envolvente como sempre.
- Então vai dizer que não vai fazer? Sabe o quanto poderá ganhar? Seu querido Ego sabe tudo.
- Ok… Eu vou fazer mais essa vez.
- Viu, isso é porque você me ama.
- Eu não te amo! Na verdade, muitas vezes eu te odeio. Você que é louco, é obcecado por mim. Tenta interferir nas minhas decisões de maneira tão… invasiva.
- Então por que não consegue me mandar embora?

Mais um ano vem chegando ao final. E esse ano, particularmente, foi muito importante na minha vida. Foi o ano em que eu entrei pra faculdade, foi quando eu deixei de ser um pouco criança e fiz 18 anos.
Começou o ano com a UFRGS. Eu saí do colégio fazendo apenas 2 meses de cursinho de revisão e estava tendo que enfrentar o vestibular que ia decidir meu futuro. Não passei, obviamente porque não mereci e, a princípio, esse seria mais um ano de cursinho. Foi aí que eu tive a conversa que decidiu o ano com meus pais. Eu iria pedir a solicitação de interesse de vaga na PUC atrasada e ver o que aconteceria. Foi uma decisão muito importante porque, por causa disso, eu teria que abrir mão de algumas coisas. “Tu quer mesmo te matricular? Não vai dar pra voltar atrás.” E eu queria ter espaço pra fazer teatro, fiquei em dúvida do que eu escolheria. Me lembro do momento em que eu disse sim pra faculdade, e eu estava na praia tomando sol quando recebi meu pai ligando pra falar “Consegui, tu estás matriculada.” Ele começou a me ler os documentos, a senha da carteira e falar das cadeiras que eu teria. Com isso comecei muito a imaginar, imaginar como tudo seria. E me peguei imaginando algumas vezes olhando pras ondas debaixo do guarda-sol.
O fato de logo sair do colégio e ser jogada pra dentro de uma universidade engatando tudo direto foi um grande lance pra mim. Eu fui obrigada a amadurecer à força, como em muitas outras vezes, e eu sabia que, se eu não fizesse as coisas conforme mandavam as circunstâncias, eu teria consequências. E tive muitas delas sim. Mas foi com elas que aprendi e construí a base para o meu futuro e para a vida inteira. 
Em 2011, muito do que eu quis aconteceu. Nunca imaginei que nesse ano aconteceria tudo isso. Lembro de uma das minhas metas, que era me surpreender. E como eu me surpreendi. Mas agora está na minha hora de surpreender a vida também e mostrar para ela o melhor que eu posso.
A determinação vai estar cada vez mais comigo a partir de agora, porque o que ainda não deu para realizar em 2011, eu vou tentar de novo. Chega uma hora em que a gente se cansa do sonho e parte para a realidade.
Em 2012, vou viver como se o mundo fosse mesmo acabar e fazer o que eu sempre quis fazer. Porque na verdade, eu nunca saberei o prazo das minhas chances… E a vida é agora. 

Feliz Ano Novo!

Sou fiel a alguns princípios e algumas coisas, - e os serei pelo resto da vida - mas nas coisas mais maleáveis eu não admito certa insistência.
Mudança. Quer dizer que a rotina muda, sempre muda. Significa que você está vivo.
Tudo na vida é um ciclo. Movimento, fluido, translação… Coisas se elevam, mudam as estações, se mexem os elementos, trocam os períodos do ano. Novos nascem para ocupar o lugar dos bem-vividos. Vem a noite, nasce o dia. E só com o conhecimento da escuridão reconhecemos a claridade. 

Arruma o que tá fora do lugar. Põe o lixo na lixeira. Guarda o que tem que ser guardado. Te livra do que tu não quer mais, renova o teu espírito.
Esse update é essencial pra se reconstituir, é a lei natural da vida. Se a gente não o faz, certamente acumula muita coisa em decomposição. Como algo orgânico: folhas nascem, crescem, dão flores, frutos; caem. E esses frutos são alimentos que também se decompõem.
(Agradece que alguns deixam sementes que te ensinam.)

“Faz de conta que tu tem dois vestidos pretos. Eles são diferentes, cada um com seu jeito. Um é mais confortável, o outro tem mais o teu estilo, um veste melhor, o outro é mais brilhante. Tu gosta de vestir os dois. 
O primeiro, todavia, era muito frágil. E já sendo frágil, por imperícia e negligência tua, falta de paciência, ele se estragou. Porém, tu tinha o outro. Saiu pra desfilar com ele numa festa e deixou o estragado no chão do teu quarto, afinal, falta de qualidade, talvez tu nem devia mandar pra arrumar. Muitos te viram com o segundo vestido. Foram marcantes as festas em que tu estava com ele. Entretanto, teu corpo ficava vulgar sem que tu percebesse e, uma hora, descobriu que não gostava mais de paetês. E o que parecia tão demais tu viu que não era o bonito que imaginavas. 
Aí nessas horas tu pensa no vestido estragado. Ele foi bom em tantos momentos. Descobriu também que, dos dois, era realmente o que tu mais gostava. De sua simples maneira discreta, era leal a ti. E não sabia quanto o conserto ia pedir pra tu pagar.”

 Mas vestidos são assim mesmo. Eles rasgam, puxam fio, encolhem, alargam. São delicados. Muitos vestidos não foram feitos para durar para sempre. Tu tem que aproveitar o tempo em que tu tem eles.

 É verdade. Agora tu entende por que uma hora falo uma coisa, outra hora falo outra?

 Sempre que a gente vê um vestido que estraga, dá uma nostalgia grande. Mas as coisas vão além da parábola dos dois vestidos pretos.

 Como?

 Uma pessoa que tem condições vai conseguir comprar outro, e quem sabe muitos outros vestidos pretos. E provavelmente melhores, mais bonitos e com muito mais qualidade do que os anteriores. 

É tempo de Natal, e é uma época em que a gente mais reflete. Ou não.
O que eu vi no Centro, certo dia voltando da autoescola, pelo menos pra mim, não tem nada a ver com espírito natalino. As pessoas mal cabiam nas calçadas (pior do que antes), saindo atordoadas e lotando lojas, apressadas, cheias de sacolas, como no intuito de EU PRECISO DAR PRESENTE PRA MOSTRAR QUE EU AMO. Compras. Comprar material. Agora sim tu tá feliz no Natal.
Outro dia eu e minha mãe estávamos no Bourbon e íamos passar para ver uma coisa que agora não me recordo o quê. Aí ela disse: “Melhor nem entrar aí, filha. Perto do Natal e as pessoas enlouquecem.”
Parei pra pensar na escada rolante e achei tudo isso muito engraçado. Um feriado que é pra simbolizar paz, introspecção, amor e alegria vira sinônimo de stress, pessoas mimadas, desespero, afobação. É até incrível, se tu for raciocinar. Na verdade, isso de valores já passou há muito tempo.
Todo o shopping hoje fica decorado com brilhos, sinos e Papai Noel. Mas quem é Papai Noel nesse caso? É um personagem mágico? É quem coloca presentes embaixo da árvore? É teu pai fantasiado?
É Dinheiro.
Só quem tem dinheiro pode ter a oportunidade de ter um Papai Noel no Natal.
Tem aquela música infantil que diz “O bom velhinho sempre vem.” Não. O bom velhinho nem sempre vem. Tem crianças que foram boazinhas o ano inteiro e, na meia noite do dia 25 estão sentadas, tristes, esperando pelo cara que não vai chegar. Ou quem sabe, nem esperando mais. Porque pra elas, - já sabem -
 o velhinho nunca vem.
Já tentei imaginar várias vezes aquelas crianças que tremem de frio na calçada embaixo de um pequeno cobertor e tentei me por no lugar. Mas não. Mesmo que eu me esforce, eu nunca vou conseguir sentir como é o mínimo da dor delas. Ninguém de fora vai saber como é. 
O Natal é uma data que eu sempre gostei muito. Claro, pra mim é fácil falar, porque nunca me faltou nada. Mas esse fato me fez pensar melhor. Saber que é dia de pensar no outro também. Toda essa fantasia e coisas bonitas que o Natal envolve me fizeram sonhar por horas quando eu era criança. Elas são mesmo mágicas. Mas não quando camuflam apenas as vendas desenfreadas. É todo um conjunto de coisas, não dá pra aguentar e se deixar levar por falsidade. A ordem está invertida: o material, que era para vir por último, está no topo da lista. 
É muito bom ganhar presente, mas vamos acalmar lá. O que importa, na verdade, são os valores que se emprega nas coisas que a gente faz. É fim de ano; hora de reavaliar, perdoar, cultivar coisas boas, estar do lado de pessoas amadas, fazer festa, acertar e renovar. Pensa nisso.
Neste Natal, tenta fazer feliz quem tu gosta. Pode ser até comprando alguma coisa. Mas por favor, que seja de forma verdadeira. O maior presente que tu pode dar pra alguém é a sinceridade dos teus atos.

As coisas são do jeito que são. Não devemos ficar imaginando como seriam “se”, ou nos desdobrando para arranjar outra perspectiva do que podem ser. Com exceção de raros casos, são como a vida te mostra e é isso aí. A expectativa que criamos geralmente excede a realidade, porque estamos acostumados a idealizar desenrolares e desfechos semelhantes às histórias que nos faziam adormecer. Dormir para entrar em sonho. Sonho, nada mais.
Não estou dizendo que não devemos criar expectativas, - longe disso - ela é uma das grandes e emocionantes partes. Estou dizendo para não elevá-la a um patamar além do normal, esperar por grandes surpresas. O problema está na espera.

Já tive situações na vida melhores que em sonho. E lembro, lembro bem. Mas já notou que, quando as coisas são melhores do que o imaginado, é porque não foi dado tanto crédito a isso? “Até imaginava, mas nunca pensei…”
Então deixe estar. Deseje, deseje alto, mas com uma intensidade inferior a da alegria da possível realidade. Porque senão, não há espaço para uma surpresa. E a surpresa é inimiga da ilusão.

 

“Desejo com um mistério entusiástico, um murmúrio de incerteza.”

Amizade é se sentir feliz pela felicidade do outro. É pular de alegria quando ele compartilha aquela novidade, seja por telefone, internet, ou pelo meio que for. É ficar sem dormir para ouvi-lo chorar. É perder uma parte da festa pra carregá-lo embriagado. É entender os seus problemas e, por mais difíceis que pareçam, se empenhar para dar conselhos. É a sintonia e compreensão com um só olhar. É acreditar que “mulher de amigo é como homem.”
É lutar pelo seu bem e ir contra o seu mal. Se alguém encostar um dedo em quem eu gosto, pode ir pra trás, porque vai ter. Inimigo de amigo meu, será meu inimigo também, se preciso.
É também rir junto de quem o inveja, odiar aquele ex que não presta. Pode até às vezes servir de álibi. Contanto que seja fiel à amizade.
Em momentos importantes, se olhares nas fotografias, ele estará lá. Será algum dos protagonistas nas grandes histórias contadas pros teus netos. Teu amigo sentirá saudade junto contigo dos momentos compartilhados, e esperará ansiosamente pelos próximos.
Quanto aos momentos desagradáveis, sabe-se que irão servir de aprendizado, e no futuro serão inclusive motivos para risadas.
E uma distância? Não é nem uma vírgula para uma amizade. Verdadeiros amigos podem até ficar distantes por algum tempo; mas, se a amizade for sincera, de uma forma ou de outra eles irão se reaproximar. E a sinceridade de uma amizade também é razão para um perdão.
A escolha de um amigo é motivo de lealdade e entusiasmo. É apresentar orgulhosamente para os outros aqueles que são tão especiais para você. “Tá vendo aqueles ali? São meus amigos, e eu arriscaria minha vida por eles!”
Certa vez me perguntaram se eu preferia escolher entre 1 amor, 100 colegas ou 10 amigos. Não pensei duas vezes e escolhi a última opção. Só sendo assim, me mostraria digna como ser humano. Porque meus colegas não me darão certeza, meu amor não existiria sem uma amizade e, sem amigos, eu sinceramente não sou nada.

Tinha chegado o dia do baile de máscaras. Eu, como convidada especial, não poderia faltar. Ali dentro, bailavam dezenas de senhores e senhoritas, todos um tanto bem caracterizados, o suficiente para ser difícil de definir suas verdadeiras identidades. Pois bem, inclusive a minha. Eu tinha um motivo esta noite.
Trazia comigo uma máscara vermelha, ignorando que muitos sabiam que me definia pela cor. Precisava, agora, que me fossem reveladas certas pessoas.
Um homem de origem misteriosa chama para dançar. Cede seu braço a mim e eu, cordialmente, aceito. Danço ao ritmo da música, com as mãos em seus ombros, sem ao menos saber quem ele é. Ele, tampouco a mim. Em meio a viradas e movimentos, meus olhos se cruzam com outros, atrás de uma máscara preta. Cruzam de novo. Sinto intensidade e desconfiança naquele olhar. Mas era conhecido e, de epifania, me dou conta que eram os principais que não deveriam saber quem eu era. Tinha uma dívida com aquele homem, que insistia em testar para ver se eu me denuncio.
A respeito do rapaz da dança, não sabia a origem. Eu apenas girava com tal par e, na tensão de ser descoberta, tentava camuflar meu rosto por trás de seu pescoço. Mas quando mudávamos de lugar no salão conforme o movimento, voltavam a fincar sobre mim aqueles olhos raivosos. Ele sabia quem eu era. E queria a vingança agora.
Meu par olhava em meus olhos e perguntava:
 Tenho certeza que conheço você. Quem você é?
Aquela voz me era familiar e, por um momento, pensei que, como não sabia quem era, poderia sofrer as consequências se revelasse a identidade real. Não sabia o que se passava.
 Anna.
 Anna?… Mas o quê..
Atordoada, refugiei-me no fundo do salão onde estavam colocadas variadas mulheres dentro de seus grandes vestidos. Elas, assim como todos, olhavam por trás das máscaras como se pudessem se esconder e inventarem qualquer coisa. Não sabiam se me conheciam e pareciam não saber, também, quem as conhecia ao certo. Obviamente, por trás de disfarces, todos podemos ser quem quisermos. Mas continuaremos tendo o caráter. E esse é o verdadeiro.

Você tem ideia de quantas pessoas já mentiram pra você?

Quase todo fim de semana, era um passeio no qual eu fazia questão de ir. Ela me ensinava coisas de anos a mais de experiência, mostrava artimanhas da vida. Músicas, histórias, desenhos, conversas e brincadeiras. Assuntos sinceros.
  ”Esse da foto é o Tiago, vó, e eu sou apaixonada por ele.”  dizia eu, com meus míseros 8 anos. 
Sério? Me conta dele, minha neta! Ele é teu coleguinha? Como ele é contigo?
Todo esse interesse que eu via sentido por mim foi pouco, mas foi intenso. Não passou entre as barras dos vestidos de festa, nem pelas primeiras futuras conquistas e experiências, ou pelas maquiagens dos encontros. 
Ela nostalgiava a vida. Não me lembro exatamente, pois faz tempo; mas tenho uma remota lembrança de ela me pedindo para aproveitar. O tempo passa rápido… 
Também não posso mentir que não nostalgio às vezes. Certas coisas que ela devia ter presenciado, não presenciou. Lhe foi permitido, ao menos, uma visão distante, porém ampla e panorâmica. É assim que eu espero. E que veja muito mais, veja eu brilhar.
Me lembro de seu nome. Asta, mas ela sempre mencionava que preferia que fosse escrito com H. Deixo aqui então, em agrado a ela, a palavra nesta forma. Apenas um adeus momentâneo. Hasta.

Movia-se pela calçada da cidade, de olhos vendados, na imensidão daquela noite fria e chuvosa. Comprou um ticket de uma passagem: Buscar o Inesperado, era o nome. Via milhões de rostos que embaralhavam-se no silêncio que fazia o barulho daquela multidão. E era isso.
Entrou no carro desconhecido, o modelo era um europeu dos anos 80. Do banco de trás, mal se dava pra ver a face misteriosa do motorista.
 Boa noite.

Trovoava.
Eu não sei onde isso vai dar, mas vou arriscar.